24 de jul de 2016

Carta de Maria Madalena de José Saramago.

"Tenho que dizer que, após a morte de Jesus eu lamentei o que chamaram pecados da minha prostituta infame e se tornou um penitente até o fim da vida, e isso não é verdade. Eu fui nua para o altar, cobertoa apenas pelo cabelo até meus joelhos, seios murchos e boca sem dentes, e se é verdade que os exercícios findos ressecaram a suavidade suave da minha pele, o que aconteceu porque neste mundo nada prevalece contra o tempo, não porque eu tinha desprezado e ofendido o corpo que Jesus desejado e possuído. Quem diz essas falsidades não sabe nada de amor.
Deixei de ser uma prostituta no dia Jesus entrou na minha casa carregando uma lesão no pé para que o curado, mas essas obras humanas chamadas pecados da luxúria não necessita de arrependimento, pois como prostituta conheci Jesus. Jesus me beijou na frente de todos os discípulos uma vez, mas muitas vezes (...)
Eles não sabiam o que dizer, porque nunca seria capaz de amar a Jesus com o mesmo amor absoluto com que eu amei. Depois que Lázaro morreu, a dor e tristeza de Jesus eram tais que, uma noite, sob os lençóis que cobriam nossa nudez, eu disse: "Eu não posso chegar onde você está porque você ter trancado atrás de uma porta que não é para forças humanas "e ele disse, soluçando e gemendo de peles de animais a sofrer:" Embora você não pode ir não vire de mim, me manter sempre estendida a sua mão, não me transformar até mesmo quando você não pode me ver, porque se você me esquecer a vida ou ela vai me esquecer.
Quando, depois de alguns dias, Jesus foi juntar-se aos discípulos, eu, que andava ao lado dele, disse: "Eu vou assistir a sua sombra se você não quer vê-lo", e ele respondeu: "Eu quero estar onde a minha sombra é se não vai ser os olhos. " Nós amamos um ao outro e dissemos palavras como estas, não só por ser belo e verdadeiro, se ele pode ser uma coisa e outra, ao mesmo tempo, mas porque sentimos que o tempo das sombras estava chegando e que era necessário para nós começamos a nos acostumar, mas juntos, a escuridão da ausência permanente. Eu vi o Jesus ressuscitado e, a princípio pensou que o homem era o zelador do jardim, onde o túmulo estava, mas agora eu sei que nunca vai ver a partir dos altares onde estive, por maior que sejam, para mais perto céu colocá-los, mesmo adornado com flores e perfumado que são. A morte não era o que nos separou, nos separou, para sempre, eternidade.
Naquele tempo, abraçando uns aos outros, nossas bocas unidas pelo espírito e da carne, nem Jesus era o que foi proclamado, nem era o que de mim se dizia.
Jesus, para mim, não era o Filho de Deus, e eu com ele, eu não era a prostituta Maria Madalena, foram somente este homem e mulher, ambos estremecendo de amor para o mundo ao seu redor como um sangue abutre barruntando.
Alguns diziam que Jesus tinha expulsado sete demônios do meu corpo, mas isso não é verdade. O que Jesus fez, sim, foi despertar os sete anjos que dormiam dentro da minha alma esperando que ele venha me pedir ajuda: "Ajude-me." Foram os anjos que Ele curou pé, o que me levou as mãos trêmulas e limpou o pus da ferida, foram eles que me pôs nos lábios a questão sem a qual Jesus não poderia me ajudar, "Você sabe quem eu sou, o que eu faço, o que eu vivo ", e ele respondeu:" Eu sei "," você não teve nada, mas olhar para mim e você sabe tudo ", eu disse, e ele respondeu:" Eu não sei nada ", e eu insisti "que eu sou prostituta", "isto é," "Eu durmo com homens por dinheiro", "Sim" "Então você sabe tudo sobre mim", e ele, em voz baixa, como a superfície lisa de um lago(...)
Então, eu ainda não sabia que era ele era o filho de Deus, ele nem sequer imaginava que Deus tinha um filho, mas, nesse momento, com a luz ofuscante de entendimento, sentia no meu espírito que só um verdadeiro Filho do homem poderia ter proferido aquelas três palavras simples: "Eu sei que sozinho." (...) e desde então, em palavras e em silêncio, noite e dia, com o sol ea lua na presença e ausência, eu comecei a dizer a Jesus quem eu era, e eu ainda tinha muito a chegar ao fundo de mim mesmo quando ele foi morto.
Eu sou Maria Madalena e amei. Não há nada mais a dizer."
 

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