9 de set de 2012

A alma Ancestral do Brail - Roberto Gambini - FINAL

Parte Final



(...)Os índios estão perdendo a terra e a cultura. No final de 1996 os jornais publicaram a notícia de que um cartel internacional especializado na comercialização de gens humanos para pesquisa industrial está oferecendo amostras de sangue Suruí. Essas amostras genéticas serão vendidas por enormes quantias para indústrias farmacêuticas interessadas em pesquisar novas formas de combater a obesidade a partir da manipulação genética. Esse mal, tão difundido nas sociedades de consumo devido ao desequilíbrio das formas de alimentação é inexistente entre as populações indígenas. Se for criado um medicamente eficaz, baseado num princípio novo, certamente os lucros serão consideráveis - mas os Suruí não estarão por certo na lista de distribuição de dividendos. O sangue indígena, capaz de curar males da nossa civilização, continua a ser roubado - eis aí uma imagem absolutamente high-tech e contemporânea que merece nossa atenção. Os novos símbolos que denunciam o contínuo drama de nossa alma ancestral vazam até pelos jornais; mas a consciência coletiva ainda não sensível o bastante para elaborá-los enquanto tema de auto-conhecimento. Outra versão moderna da pirataria que imperava na época das grandes navegações leva o nome de Plant Medicine Corporation. Esta organização, voltada para assegurar royalties de substâncias curativas do Terceiro Mundo que podem mais uma vez dar lucro ao Primeiro, já patenteou o uso do cipó alucionógeno huasca. O tráfico de especiarias ou de pau-brasil ainda não terminou, ele se renova e se reatualiza a cada década e á como se esse contínuo saque à cultura milenar não tivesse ainda sido compreendido em todas as suas implicações - especialmente as psicológicas. Caso o Brasil, portanto, venha a adotar uma política de efetiva proteção de seus recursos naturais e culturais e decida produzir industrialmente o chá de huasca, que embora ainda não pesquisado em seus potentes efeitos serve de base para a organização de novas religiões (Santo Daime e União do Vegetal) e permite a um crescente número de adeptos a vivência imediata da transcendência do ego, será necessário que nosso governo pague royalties a uma corporação americana pelo uso de uma erva medicinal milenarmente nossa. Nos anos 60, um assunto desses inflamaria a retórica anti-imperialista dos movimentos de esquerda; hoje, já não mobiliza mais ninguém. E no entanto, eis aí, deslavado, mais um símbolo que reflete a degradação de nossa alma ancestral e que sintetiza o estado de inviabilidade histórica que ameaça essa parte cada vez menor de nossa população através da qual nos conectamos às raízes. Os índios ao final perderão suas terras, morrerão de doenças várias, serão assimilados como mão-de-obra não qualificada na camada mais baixa da sociedade brasileira. Não surgiu até hoje uma política indigenista que minimamente funcionasse e os defendesse em seus direitos mais elementares. Mesmo aqueles que honesta e sinceramente defendem os índios não sabem mais o que fazer em âmbito nacional.
Terminarei esta reflexão com um breve comentário sobre um dos mitos coletados por Betty Mindlin em sua pesquisa de campo. Desde que o ouvi não fiquei mais em paz. Algumas poucas vezes nos reunimos em meu consultório para falar dessas histórias, cada um a partir de seu ponto de vista. Não pretendíamos chegar a interpretações completas, mas antes a tocar o fundo do poço. Ainda não se tem uma metodologia adequada que dê conta de um material tão vasto, com tantas variações, e que permita uma leitura tanto poética quanto antropológica e psicológica. O método junguiano tem aí um enorme desafio à sua frente. Pessoalmente, não me afino com a metodologia de Lévy-Strauss, que só vê nos mitos diagramas cifrados de uma estrutura social abstrata e nunca da alma que os gerou e que portanto pode estar neles espelhada. O mito em questão pode ser intitulado "A cabeça voraz", "A cabeça voadora" ou ainda "A cabeça que perdeu o corpo" e é narrado em várias tribos. Vou reproduzir, resumidamente, a versão Makurap.
"Marido e mulher vivem em harmonia. Tudo vem bem em sua vida na aldeia. Toda noite eles dormem juntos na rede e toda noite a cabeça da mulher se desprende do pescoço e vai voando em busca de comida em outras aldeias. A cabeça se alimenta durante a noite e antes do dia raiar volta e se encaixa novamente no pescoço. Quando acorda, o marido vê a mulher a seu lado como sempre, mas com uma pequena gota de sangue no pescoço. Ambos ignoram o que a cabeça faz em seu vôo solitário noturno. Um dia, a mãe da moça entra na maloca e surpreende o genro ao lado do corpo decapitado da filha e imediatamente o acusa. O corpo é enterrado e a tribo toda se volta contra o marido, a quem só resta fugir. A cabeça volta e não encontrando mais o corpo que lhe corresponde, pousa no ombro do marido, onde se fixa como uma segunda cabeça. Este fica desorientado, porque quando quer uma coisa, a cabeça quer outra. Esta começa a entrar em decomposição. O homem tenta se livrar dela, mas ela resiste. Finalmente ele a arranca do ombro, foge pela floresta adentro e ela o persegue até que o bacurau acaba levando-a para o reino dos pássaros..."
Creio que as imagens deste mito absolutamente brasileiro e autóctone nos dizem que a busca de conhecimento é arquetipicamente vedada às mulheres. Por algum tempo é possível encontrar alimento novo, mas este não pode ser integrado. O tabu então determina que a mente da mulher deve ficar ali ao pé do fogo onde cozinha, é lá que sua vida transcorre e lá estariam seu sentido e seus limites. Encontrei uma idéia similar no trabalho de Alícia Fernández, uma psicopedagoga argentina que estuda as dificuldades das professoras em desenvolverem um pensamento próprio. Essa autora encontra no Gênesis a origem desse mandato proibitivo: Eva é punida por ter ousado aceitar da serpente o fruto da Árvore do Conhecimento proibido por Deus. O tema é amplo e pode nos levar longe, mas aqui não se trata apenas de um problema arquetípico da mulher indígena, e sim algo que diz respeito ao princípio feminino como um todo, manifestado tanto nas mulheres como nos homens, na cultura ou na alma.
Mas há também outra possibilidade de leitura. Houve um tempo mítico em que o princípio masculino e o feminino estavam equilibrados e em harmonia, mas a partir de um certo ponto o último não pôde mais se expandir porque não é mais possível integrar qualquer transformação. Nossa alma ancestral é como essa cabeça. Ela perdeu o corpo, que seria a materialização de uma nova síntese - o corpo não existe mais, foi enterrado, desintegrou-se no inconsciente - e busca outro, ao qual no entanto não pode ser conectar por uma impossibilidade natural. Não se trata aqui de uma analogia à figura alquímica do andrógino, porque nesta masculino e feminino estão diferenciados mas unidos na base, num corpo que pertence às duas cabeças. No nosso mito a imagem é outra, a situação psíquica é outra. Essa cabeça desencorpada é nossa alma perdida vagando penada pela noite da inconsciência sem poder se encaixar naquele corpo que seria nossa própria realidade humana aqui e agora, uma realidade física, corpórea, psíquica, cultural, social e política. O simulacro de integração do princípio feminino arquetípico - isto é, ancestral e imemorial - justamente por não ser uma verdadeira integração mas algo falso, forçado, postiço, apodrece e cria dissociação, obscuridade, fastasmagoria. A consciência que nos orienta a todos procura então loucamente se livrar daquele encosto maldito, para poder continuar unilateralmente estruturada em sua racionalidade dominante. E aquilo que poderia transformá-la e revitalizá-la desaparece do campo conhecido: dissolve-se no céu do Cruzeiro do Sul, de onde até hoje nunca mais voltou. Vejo portanto nesse mito o drama da separação não redimida dos opostos e é esse o grande problema arquetípico que nos afeta essencialmente a todos.

(Palestra proferida em outubro de 1996 no Moitará, encontro promovido em Campos do Jordão pela Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Foram feitos alguns acréscimos. O autor é analista formado pelo Instituto C. G. Jung de Zurique, membro da Sociedade Internacional de Psicologia Analítica e da Sociedade Suíça de Psicologia Analítica. É sociólogo, advogado e Mestre em Ciências Sociais pela Universidade de Chicago. Publicou O Espelho Índio - os jesuítas e a destruição da alma indígena, Ed. Espaço e Tempo, 1988, e vários artigos.)


REFERÊNCIAS

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Ediciones Nueva Visión, Buenos Aires, 1992.
2. FREUD, Sigmund. Totem and taboo. Vintage Books, New York, s/d.
3. GAMBINI, Roberto. O espelho índio - os jesuítas e a destruição da alma indígena. Editora Espaço e Tempo, Rio de Janeiro, 1988.
4. GAMBINI, Roberto. "The soul of underdevelopment - the case of Brasil". The San Francisco Jung Institute Library Journal 57, vol. 15, n. 1, 1996. Publicado também nos Proceeding of the 13th International Congress for Analytical Psichology, Daimon, Zurich, 1996. Publicado também como "Die seele der unteertwicklung - der fall brasilien". Gorgo, Heft 30, Jahrgang 1996.
5. JUNG, Carl Gustav. "Conscious, Unconscious ond Individuation", in Collecte Works 9, Part I. Princeton University Press, Princeton, 1977.
6. JUNG, Carl Gustav. Aion. Rescarches into the Phenomenology of the Self. Collected Works 9, Part II. Princeton University Press, Princeton, 1951.
7. JUNG, C.G. "Mind and Eart". Collected Works 10. Princeton University Press, Princeton, 1978.
8. JUNQUEIRA, Carmen. Os índios de Ipavu. Ática, São Paulo, 1975.
9. LÉVI-STRAUSS - The Raw and the Cooked. Harper, New York, 1969.
10. LÉVI-STRAUSS - Anthropologie Structurale. Plon, Paris, 1958.
11. MINDLIN, Betty and Suruí Narrators. Unwritten Stories of the Suruí Indians of Rondonia. Institute of Latin American Studies, Austin, 1995.
12. MINDLIN, Betty. Tuparis e Tarupás - Narrativas dos índios Tuparis de Rondônia. Brasiliense, São Paulo, 1993.
13. NEUMANN, Erich. The Great Mother. Na Analysis of the Archetype. Princeton University Press, Princeton, 1963.
14. RIBEIRO, Darcy. Teoria do Brasil. Paz e Terra, Campinas, 1972.
15. RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. Companhia das Letras, São Paulo, 1995.
16. VEJA, Garcilaso de la. Comentarios Reales. Origen e historia de los Incas del Peru (1609). Mercurio, Lima, 1970.
17. ZOJA, Luigi. Crescita e Colpa. Psicologia e limiti dello Svilupo. Anabasi, Milano, 1993.

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