9 de set de 2012

A Alma Ancestral do Brasil - continuação

Continuação...



Isso é uma perda, uma maldição, em nada menos trágica do que as que se abateram sobre Tebas ou Micenas; é um fator desagregante a operar sem trégua em nossa vida consciente e inconsciente. Está aqui bem ao nosso lado, sobre nosso ombro esquerdo, esse Outro nosso que não temos condições de incorporar. Não porque não queiramos, mas porque não há como. Há na verdade muito trabalho a ser feito até que isso seja psiquicamente possível. O conhecimento da alma ancestral, da cultura indígena e da mitologia precisaria se espalhar pelo Brasil inteiro, para que as novas gerações fossem educadas trazendo em seu imaginário todas as cobras, todas as onças e arco-íris, todos os espíritos da floresta, as maravilhas, os terrores e as metamorfoses que jazem desativados no fundo do inconsciente de todos nós. Quando esse mundo renegado for introduzido no imaginário das crianças, elas começarão a desenvolver naturalmente outros conceitos e outros valores e a partir de um certo ponto começarão a perguntar por que sim e porque não, por que o Brasil é assim, por que se faz um represa que acaba secando um rio (o Tocantins), por que a floresta está sendo destruída, por que os índios estão acabando - ou seja, que modelo de país é esse que nos subjuga. E esse questionamento todo não será o resultado de um doutrinamento ideológico e político, mas resultará sim do estado em que se encontrar um dia o imaginário da nova geração. Que se nutre de imagens e de nada mais.
Somos portanto possuidores de uma verdadeira Enciclopédia Britânica de imagens brasileiras e elas não estão alimentando nosso imaginário. Para falar com a alma é preciso alma, para falar com o imaginário é preciso imagens. Isso vai demorar. Não chegaremos a ver. Mas temos que fazer o que é possível, aqui e agora - no nosso caso de analistas, me parece, o que podemos fazer é trabalhar e criticar a consciência e mostrar-lhe novas possibilidades. Rever e repensar nossas categorias e nossa pseudo-mitologia. A maneira como a História do Brasil é ensinada é brutalmente anti-psicológica, além de ser falsa em muitos aspectos. É preciso ensinar que o Brasil não foi descoberto mas ocupado; que isto não era terra de ninguém, mas de alguém que permitiu que o invasor entrasse por achar que este que chegava era seu salvador, alguém que viria trazer-lhe o que faltava. Os índios abriram os braços e as pernas para receber o europeu. Que veio e fincou uma cruz na carne da religião indígena, como um punhal a atravessar-lhe a alma. O padrão de Porto Seguro, primeira marca da conquista - equivalente, numa analogia moderna, à bandeira americana plantada no chão poeirento da Lua pelo astronauta tornado herói - é uma pedra que traz esculpidas numa face as armas de Portugal e na outra a cruz de Cristo. Esses são os símbolos do começo de nossa História. O que significa psicologicamente essa união entre cruz e espada? Como olhar para a cena da Primeira Missa celebrada no Brasil, tema ufanista de nossa pintura acadêmica, e não perceber nela o começo do genocídio religioso? Quem é o verdadeiro Sacrificado dessa eucaristia? Não o corpo de Cristo, mas a alma indígena - e é precisamente essa idéia subversivamente nova e incômoda que a consciência coletiva deve agora abrigar em seu centro, já que por séculos a manteve negada e reprimida.
Urge perceber que a história dessa primeira missa e de todas as outras que se seguiram não é porém a alma indígena, como seria de se supor, por ser ela o verdadeiro objeto do sacrificado eucarístico. Transsubstanciada, a alma ancestral sacrificada, como a hóstia, seria pela própria coerência simbólica da missa redevolvida perene e fortalecida pela sua junção ao espírito de Cristo. Mas não. Não foi esse o mistério operado pela missa. A missa indígena é o inverso do processo de individuação, é um ritual para desfazer identidades. Na missa que Anchieta verteu para o tupi (Glória), os acólitos índios eram ensinados a pedir a Cristo, cantando:
Vem trazer-me a alegria, trazer-me a tua virtude.
Que eu cumpra a tua palavra e te ame no meu coração.
Tu te tornaste criança porque querias viver.
Vem! E tomara que o mal se afaste de mim para sempre.
Ou seja, a missa instaurava como verdade dogmática que o Mal era imanente à essência dos homens da terra e que só a religião do conquistador poderia redimi-los de tal sina perdida. Aí a cruz e a espada se casaram em perfeita e indissolúvel comunhão de bens.
O que as missas de todo o período colonial de 1549 em diante fizeram descer pela goela abaixo de uma população conquistada não foi a hóstia da valorização da alma, mas a de sua destruição. Foi a hóstia de um catolicismo defensivo, atacado pela Contra-Reforma, que reinstaura sempre o mesmo mecanismo de projeção da sombra. O catolicismo defensivo faz com que o homem ibérico só veja virtudes em si e projete toda a sua sombra sobre o índio, que passa a ser visto como um ser pecaminoso, criado pelo demônio, que não obedece a ninguém, sem lei e sem Deus, um ser inábil para o trabalho, ocioso e preguiçoso, um lascivo incorrigível, portador de todos os pecados, vícios e imperfeições de que é capaz a natureza humana - se é que humanos chegavam a ser. O invasor se sente assim eticamente legitimado a melhorar esse ser ignóbil, dando-lhe uma alma para que ao menos se eleve à categoria de homem. Os missionários jesuítas passarão então a reencontrar o mito da Criação, sendo eles obviamente Deus e os índios a argila a ser moldada à imagem e semelhança do criador. Este é o começo de nossa alma civilizada e esta é nossa pseudo-mitologia.
A pedagogia instaurada no Brasil nascente consistia em tomar um aprendente e lhe dizer, como o fez José de Anchieta, o patrono da educação: "esqueça quem você é, tenha vergonha de si mesmo, largue tudo, olhe para mim e queira ser como eu". Isso ainda está vivo no Brasil, porque quando olhamos para o Primeiro Mundo até hoje fazemos a mesma coisa, especialmente com relação ao pensamento de lá: "esqueça, esqueça, esqueça, olhe para o outro, queira ser igual ao outro, pense como ele pensa". A pequena escola jesuítica, em torno da qual formavam-se os primeiro núcleos habitacionais e para onde convergiam os índios cristianizados, é considerada o marco inicial da sociedade brasileira: meninos índios ensinados por missionários, casas de taipa, cercas, primeiras ruas. Mas a pedagogia que se praticava nessas escolas - São Paulo começou assim, 1554, nos campos de Piratininga - era da negação do ser indígena.
Esses fatos históricos todos precisam ser revistos e interpretados sob um novo prisma que nos ponha no encalço da alma perdida e da individuação abortada. As crianças de hoje precisam ouvir que ao chegar aqui a esquadra descobridora cometeu o primeiro ato anti-ecológico, a derrubada do pau brasil que nos nomeia. Portanto é em 1500 que se origina nosso atual problema de devastação florestal e de destruição da natureza. Uma imagem que expressasse essa idéia deveria aparecer na capa dos livros escolares patrocinados pelo Ministério da Educação até que fosse fixada e lançasse raiz, em substituição a toda uma galeria de imagens alienantes que trazemos no porão da mente e que só nos afastam de nós mesmos por nos manterem na inconsciência. A árvore pau brasil é um símbolo do nosso Self. Começamos derrubando a árvore que nos nomeia. O que isso tem a nos dizer sobre nossas próprias dificuldades de crescimento?

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