9 de set de 2012

A Alma Ancestral do Brasil - continuação

 continuação...

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O nome disso tudo é alma ancestral, que passa a ser o patrimônio humano supremo, transmitido pela educação quando possível e que com o passar do tempo acaba se incorporando como uma qualidade da cultura e da consciência. O que é um arquétipo? Um arquétipo é uma predisposição, um formato imanente à psique, mas com um ponto de origem no tempo, na História e no espaço. O arquétipo paterno ou materno nasceram no escuro do passado, nos animais e depois nos seres humanos, através de infinitas repetições, que se cristalizaram em nossa psique como uma prontidão para reagir a atuar em determinadas situações que os evocam. Ora, os arquétipos estavam se formando também no Brasil pré-histórico, nesse passado remoto e negado que imaginamos como não nos pertencendo e que vamos buscar nos livros e nas teorias que o evocam alhures e nunca aqui. Há arquétipo da psique brasileira que estão muito bem datados e localizados no solo ameríndio. Lembremo-nos de Jung, que dizia que a psique tem um solo, a psique não vive no ar. Terra e psique, espírito e matéria são duas faces da mesma realidade e não precisamos ler isso em Mysterium Conjunctionis apenas. Isso está no solo brasileiro, os arquétipos também se fizeram aqui, como em outras partes do planeta. Proponho que olhemos para isso e nos perguntemos quantos deles estão adormecidos no nosso inconsciente profundo e o que pode nos acontecer, enquanto povo e enquanto indivíduos, se soubermos entrar em contato com esse lençol freático através de uma raiz suficientemente funda. Eu queria ver isso acontecer no Brasil no terreno da psique. A tarefa histórica que nos cabe é vitalizar essa raiz e absorver dessa camada profunda a seiva que vai nos tirar do subdesenvolvimento. E nos tornar, a nós que trabalhamos com isso, junguianos brasileiros - porque estaremos expressando a alma que na verdade nos mantém. Quer reconheçamos ou não, atravessamos a vida montados na energia dessa alma - pois negada ou não (como mandou Jung gravar sobre o portal de sua casa em Küsnacht), ela está sempre presente.
Há mitos em nosso imaginário ancestral - como por exemplo o da proibição de auto-devoração - cujo núcleo deve remontar à época perdida no tempo em que o homem se condicionou a viver de caça e não de carne humana, provavelmente quando estava descendo das árvores, procurando o abrigo das cavernas e inventando as primeiras armas e ferramentas. Ninguém se aventurou ainda a fazer uma tentativa de datação desses mitologemas - mas para quê fazê-la, se a consciência contemporânea não atribui a menor relevância psíquica à incorporação desses fragmentos perdidos de alma ancestral? A proibição do incesto enquanto condições para o nascimento da cultura - tema tão caro a Freud, Jung ou Lévi-Strauss - está decretada nos mitologemas brasileiros coetâneos ou subsequentes ao aparecimento das primeiras regras de parentesco. O mito segundo o qual a mulher transformada em cobra não se acasala com o irmão, mas engole seu corpo e posteriormente o regurgita coberto de pinturas, é a demonstração brasileira da idéia de que o incesto é proibido porque, se não o fosse, não haveria nem sociedade, nem arte. No aconchego dos ninhos quentes do convívio endogâmico, um rapaz se deixaria ficar para sempre com as mulheres de seu sangue e não sairia jamais em busca de outras, com as quais fundaria novas unidades de parentesco, reprodução e troca econômica. Não haveria circulação de mulheres (para usar a terminologia de Lévi-Strauss), que ao lado da circulação de bens e de palavras constitui uma das estruturas elementares da vida cultural em sociedade. Onde há incestos não há cultura e não há troca, não há humanidade, nem evolução. Nossos mitos sabiam e prescreviam isso. Mas nós não sabemos que nossos mitos já sabiam. Nem que tínhamos mitos.
Ora, essa idéia, que é uma idéia teoricamente trabalhada pela Antropologia, pela Psicanálise ou pela Psicologia Analítica, está muito bem representada na mitologia brasileira. Não seria um motivo de crescimento interno para nós entrarmos em contato com isso - nós, que ficamos voltados para fora sempre, invejando talvez os quatro mil anos do mito de Gilgamesh, o mais antigo da civilização ocidental... mas e os nossos mitos ignorados? Tenho certeza de que se Jung tivesse tido a oportunidade de conhecer a história indígena das Américas ele teria incorporado todo esse riquíssimo material em sua obra, como objeto de estudo per se ou como corpus amplificatório. A tarefa ficou para nós. Proponho justamente uma reflexão sobre tudo isso em termos anímicos.
Nós analistas cuidamos da alma. Temos que perceber quais partes dela estão silenciadas, quais partes estão presas, quanta libido está cristalizada na alma brasileira - porque é fundamentalmente isso que vai nos ajudar a nos tornarmos aquilo que podemos nos tornar e deixarmos de ser sub, isto é, não chegarmos a ser aquilo que potencialmente somos. Esse é o nosso grande drama, essencialmente brasileiro, e o nosso desafio - o desafio do atraso. Ficamos sempre abaixo e aquém - e isso não se resolve nem estudando, nem absorvendo o Primeiro Mundo, nem atribuindo essa tarefa à Política, à Economia, ao Direito Internacional, à Constituição. Essa é uma tarefa psíquica: sairmos da maldição de não podermos ser aquilo que potencialmente somos aprofundando nossa raiz nesse lençol freático subterrâneo onde jaz fossilizada a alma brasileira.
Cada paciente nosso traz dentro de si essa história em miniatura, dizendo sem claramente dizer: "eu podia ser um pouquinho mais aquilo que no fundo sei que sou". E nós, escutando outras palavras, ouvimos exatamente isso e seja qual for nossa linda de trabalho, tentaremos atingir essa camada não vivida do paciente. E para isso temos que entendê-lo como uma pequena peça de um todo que também espera ser compreendido, e nos entendermos a nós mesmos como instrumento de desvelamento do adormecido.
Esse é o núcleo da reflexão que tenho feito sobre nossa alma ancestral e agora eu gostaria , talvez para equilibrar a argumentação, de dizer algo sobre a alma brasileira que se desenvolve a partir da negação da ancestralidade, historicamente em 1500. Foi aí que anos atrás comecei meu estudo, a partir de uma perspectiva em que se combinam a Psicologia Analítica, a História e a Antropologia. Minha tese de formação no Instituto C.G. Jung de Zurique foi uma análise da correspondência jesuítica. Essas cartas, escritas no decorrer do século XVI, são os primeiros documentos brasileiros, a semente de nossa literatura e de nossa consciência coletiva cristã. A primeira delas é de 1549, na qual o recém-chegado missionário Manoel da Nóbrega inicia um relato, ao qual se juntariam outras vozes, em que é descrita a terra brasileira e seus habitantes. Achei que entender o que vinha exposto nessas cartas me ajudaria a perceber, enquanto analista, qual o conflito original a partir do qual teria começado a se estruturar a alma brasileira.
O ano de 1500, se relembrarmos as considerações que faz Jung em Aion, é um ano marcado arquetipicamente, configurando um dos pontos de inflexão da dualidade que determina a história dos dois mil anos da era de Peixes. Na imagem astrológica, a metade do segundo peixe corresponde ao ano de 1500 e ao Renascimento italiano - e, como sabemos, ao Descobrimento (melhor dizendo, à Invasão) do Brasil pelos portugueses. É portanto o ano da retomada da alma ocidental, da alma latina. Mas Jung não diz, porque essa realidade não lhe era tão presente, que esse é também o ano (arredondemos as datas) do encontro entre brancos e ameríndios. A "descoberta" do Novo Mundo não é apenas uma conseqüência dos progressos da navegação desenvolvida pela escola de Sagres, da expansão mercantil ou do extremado arrojo português constelado nesse período, mas um fato histórico determinado arquetipicamente: o encontro de duas partes da humanidade estruturadas sobres bases distintas. Cada parte envolvida viveu e vive até hoje as consequências desse portentoso evento. Para Portugal, foi o apogeu de sua coragem ultramarina, de sua capacidade de penetração e conquista - e o momento de encontrar sua alteridade, seu oposto. Para a nova terra, foi o começo da destruição de sua alma ancestral e de suas populações autóctones. Dois arcos cruzando-se no tempo: um em ascensão, outro em declínio.
Para nós junguianos essa idéia, ou esse fato histórico, pode render muito. Porque o processo de individuação, pessoal ou coletivo, é a busca do Um pelo Outro. Cada um de nós procura um outro desconhecido dentro si, assim como este país deve procurar outro, melhor, mais verdadeiro, mais fincado na própria essência, mas oculto pelo país oficial. Nossa consciência busca seu outro, que é o inconsciente, manancial de onde provém tudo aquilo de que é feita e de onde emana também sua renovação. Nosso ego busca seu outro, que é um ego não apoiado apenas na sombra e na persona, mas um ego sabedor de si e seus limites e portanto servidor do Self. A busca pelo outro é sempre uma busca arquetípica e para nós esse outro é o índio. Literal e simbolicamente. Cada um de nós carrega um índio dentro de si na medida em que carregamos um inconsciente e em que não somos apenas isto que mostramos uns para os outros e para nós mesmos. Há mais. Esse mais eu chamo de índio.
Quando retomamos a idéia de que na história do nosso país o índio é imediatamente catequizado e escravizado e que já em 1500 sua cultura (nossa alma ancestral) começa a ser destruída, vemo-nos diante de dois possíveis objetos de análise: nosso país e nossa psique. Percebemos então de imediato que nosso trabalho de resgate não vai poder ser feito numa vida, porque a destruição foi calamitosa e atingiu confins ainda não mapeados. Estruturou-se em nós uma consciência que perdeu o acesso a esse índio, ela não tem conceitos nem categorias para tanto e na verdade não sabe como acessá-lo. É preciso então admitir que ao lado desse nosso ser conscientizado e corporificado há uma alma penada, um fantasma de uma essência humana que não tem mais corpo porque não houve síntese. A alquimia só pode ocorrer em nós e como ela não acontece, o pedaço não integrado é um pária na nossa psique e na sua própria terra, é um exilado, uma alma descorporificada que não encontra corpo nunca mais.

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