9 de set. de 2012

A Alma Ancestral do Brasil - continuação

Continuação...



Os portugueses aqui chegaram com uma fantasia de Paraíso na cabeça, uma fantasia de encontrar mulheres nuas, fartas e disponíveis, em tudo diversas da mulher da Contra-Reforma, ambientadas numa natureza dadivosa onde tudo fosse permitido e nada fosse pecado - como aliás já lhes garantira o Papa Alexandre VI ao decretar que não havia pecado ao Sul do Equador, o que eqüivale a dizer que a sombra aqui podia correr solta. Um bom documento para ser interpretado num curso de formação de analista seria a carta de Pero Vaz de Caminha, a primeira a descrever a nova terra e sua gente, na qual claramente se percebe a profecia de que este país teria que agüentar sobre as frágeis costas uma descomunal e perigosíssima projeção de Paraíso - que ademais aqui se constituía para gozo e desfrute exclusivo do português, já que o mesmo de sua psique emanava, e jamais da imaginação do habitante da terra, para quem a floresta era sempre (como até hoje se constata) Paraíso, perigo e dureza ao mesmo tempo. O que iria então acontecer? Toda uma obra histórica, absolutamente masculina e fálica, que é a Conquista, será realizada por homens brancos de um lado e mulheres índias, de outro. As mulheres portuguesas nem mesmo nas caravelas embarcaram. Isso já há alguns anos me tem feito pensar no seguinte: a anima estava ausente na formação do Brasil. O português traz consigo uma imagem de mulher que não é a anima, mas uma fantasia que jamais será capaz de integrar, pois para tanto amadurecer era preciso. Porque se em lugar dessa falta de eros e de sentimento estivesse presente a verdadeira anima portuguesa, aquela que se manifesta nos sonetos de Camões, na lírica de Gil Vicente, nas cantigas de amor e de amigo, a maneira como os homens teriam se relacionado com as mulheres teria sido outra e em lugar do mero acasalamento, que foi o que ocorreu, uma junção psíquica poderia ter sido ensaiada. O que se deu entre o homem e a mulher desses dois mundos foi apenas uma miscigenação a nível biológico, físico e genético, mas não psicológico. sem absolutamente nada a ver com os refinados sentimentos descritos pelo grande Poeta das navegações lusitanas, sentimentos peninsulares que não chegaram a atravessar o Atlântico.
Somos portanto um caso histórico de anima ausente. Américo Vespúcio chega aqui e batiza a terra com a forma feminina de seu nome, mas não de sua alma. O nome "América" é sem dúvida uma projeção, mas a projeção de um vazio, de um buraco, que ao se materializar nega e destroi a verdadeira anima que lhe antecedia, porque toda a alma ancestral é feminina em sua própria não-racionalidade. Na hora que o princípio masculino chega aqui - quer dizer, a consciência crescentemente racionalizante do século XVI - ele não se junta ao feminino, mas nega-o ao mesmo tempo em que sobre ele projeta uma fantasia de feminino. Isso pode ser lindamente percebido nos mapas desenhados nessa época, por exemplo o que estabelece a demarcação das capitanias hereditárias. A linha vertical absolutamente reta do Tratado de Tordesilhas é cortada pelas horizontais igualmente retas que definem os lotes destinados aos primeiros capitães da terra. Aí temos Descartes subitamente implantado sobre a mata Atlântica! Na alma ancestral e feminina não há essa linha reta porque ela não funciona de modo cartesiano. A masculinidade psicológica que aqui desembarca chega para arrasar e o faz indo sempre diretamente ao alvo de sua ilimitada cobiça.
Há uma ausência do feminino contemporâneo dessa racionalidade porque também na Europa da Contra-Reforma (certamente não na cultura renascentista) ele estava reprimido. Portanto o que nos coube foi um feminino projetado. A nível sociológico o que vai decorrer disso é a criação de um povo a partir do acasalamento exclusivo de branco com índia. O primeiro híbrido é o primeiro brasileiro. Esses mestiços vão se multiplicando e gravitando em torno das aldeias que iam se formando, das primeiras capelas e escolas jesuíticas em Porto Seguro, no Arraial da Ajuda, em Salvador, Olinda, Vitória, São Vicente, São Sebastião do Rio de Janeiro, São Paulo de Piratininga. Os índios vão sendo atraídos e catequizados, as mulheres vão gerando filhos híbridos e esses primeiros mestiços circulam por esses arraiais criados pelos jesuítas como cristão convertidos, selvagens domesticados.
Essa é a proto-célula de nossa sociedade, o começo de nosso povo. E aí começa o drama de nossa identidade. Esse filho não pode se identificar nem com o pai, nem com a mãe. Uma índia que se acasalou com um branco e foi batizada não é mais aceita em sua aldeia de origem, ela saiu e para lá não pode mais voltar. E nem sua língua pode transmitir ao filho, fosse ela de que etnia fosse, porque a língua que seu filho falaria era o tupi, língua geral que se imporia sobre as centenas de línguas que então se falava no Brasil, e o português a seguir. A religião ela certamente não transmitiria ao filho, pois acabava de formalmente renunciar à que tinha quando forçosamente aceitava a do dominador, e se alguma mitologia hipoteticamente tentasse ensinar à nova geração, seria por certo o que mais ajudaria a esta na impossível tarefa de se descobrir a si mesma no novo ciclo histórico que se inaugurava.
A identificação com a figura materna era portanto inviável. E com o pai tampouco podia esse filho vir a identificar-se, uma vez que na Península Ibérica um mestiço, mameluco e bastardo não tinha lugar na sociedade de estamentos regidamente delimitados. Se um certo Dom Manuel de Faria resolvesse, depois de trinta anos de Brasil, regressar para Coimbra levando consigo na caravela os filhos que com várias índias tivera, estes não poderiam seguir carreira militar, nem religiosa, nem acadêmica, nem civil, e muito menos casar-se com moças da mesma condição social de seu pai - esses filhos brasileiros seria párias na terra paterna.
Quem é pois esse homem do Novo Mundo que não pode se identificar nem com pai nem com mãe? Nas palavras de Darcy Ribeiro, que melhor do que ninguém levou adiante esta reflexão, ele é um Zé Ninguém. Portanto a alma brasileira que se plasma a partir do contato entre duas grandes tradições é a alma do anônimo ninguém. Daquele que não sabe quem é e não pode ter uma raiz nem para o lado de cá, nem para o lado de lá, portanto um desarraigado a carregar consigo uma pesada problemática existencialista já no século XVI que nem Heidegger conseguiria equacionar.

A Alma Ancestral do Brasil - continuação

Continuação:




No decorrer dos próximos três séculos, a essa crescente massa amorfa junta-se o triste contingente de africanos escravizados, igualmente arrancados de seu contexto e misturados entre si para que se anulassem as diferenças étnicas e culturais de origem. A segunda matriz brasileira, aquela resultante da união entre branco e negra e todas as possíveis demais combinações - mantido evidentemente à parte o ventre branco - gerará os mestiços mulatos que sofrerão a mesmo imposição existencial de não poderem saber quem são e de onde vêm. Mas de ventre branco também nasceram bastardos. Preocupados com a devassidão de costumes sexuais que tão cedo se implantava no Brasil, os jesuítas logo se apressaram a solicitar que a Companhia de Jesus em Lisboa despachasse para a Colônia mulheres brancas para que se garantisse um mínimo de eugenia. E eis que em meados do século XVI aporta no litoral a nau das prostitutas, desembarcadas após receberem a bênção a bordo. Com elas veio a sífilis para uma terra que até então desconhecia esse e outros males. E com elas as portugueses acasalarão como alternativa às índias por recomendação expressa dos missionários, que com esse gesto demonstram colocá-las no mesmo plano. Vemos portanto que a fantasia de feminino que os portugueses traziam em sua mente era mesmo a da puta. E as mulheres da terra tiveram que carregar essa projeção sobre a cabeça.
A Grande Mãe do Brasil é uma índia, esse é o nosso mito e nossa verdade histórica e psicológica. Temos que começar a considerar esse mito, e não apenas o da grande mãe babilônica, grega ou romana, que tanto se estuda nos círculos junguianos. De novo: se Erich Neumann conhecesse a mitologia brasileira, ele sem dúvida a teria incluído em seu trabalho sobre o tema. Já nosso consciência coletiva não reconhece mesmo a existência dessa mãe ancestral, que não aparece em produto algum de nossa cultura ou de nossas especulações pseudo-psicológicas de que escola for.
Mas para não perder o fio: diz Darcy Ribeiro, a meu ver de modo brilhante, que foi preciso, no século XIX, inventar-se um país chamado Brasil para que esse povo de Zé Ninguém pudesse dizer que pertencia a alguma coisa. Essa é a verdadeira questão por trás da factualidade ostensiva da proclamação da Independência pelo filho rebelde do monarca português, identificado com a jovem nação que pretendia ser levada a sério. É como se a psique coletiva, atingido aquele ponto de saturação, estivesse a pressionar no plano institucional pela formalização de um mínimo de persona coletiva, para assim assegurar a manutenção do vácuo psíquico interior de que éramos feitos. O povo brasileiro estava finalmente querendo ser dono de seu próprio nada. Ganhamos então um país internacionalmente reconhecido que nos permitia sermos o pouco que éramos. E é preciso olhar para o passado histórico nesses termos, porque só assim se entre em contato com aquela revolta no fundo do estômago que possibilita a recusa do status quo, que permite dizer: "não precisa necessariamente ser assim".
Contamos hoje com um dos plantéis genéticos mais ricos do planeta e com um dos complexos culturais mais diversificados que se possa conceber no mundo atual. O desafio que nos cabe é: será ou não possível extrair a quintessência alquímica dessa matéria prima? Será que nossa consciência já chegou a esse ponto? A alma ancestral brasileira é hoje uma alma penada; e aquela que se constitui a partir de 1500 sofre de um complexo nacional de inferioridade e está com sua energia criativa reprimida. Não tem sido mais possível sonhar no Brasil, um sonho coletivo compensatório das misérias de uma sociedade injusta que nos dissesse o que o inconsciente espera de nós e o que nos reserva como possibilidade histórica. Esse sonho foi esboçado nos anos 60, mas a repressão militar foi longe demais e traumatizou nossa ousadia onírica.
Gostaria de ir concluindo estas reflexões abordando dois temas: um mito que rapidamente comentarei e alguns sonhos que o grande pajé Kamaiurá Takumã teve em setembro de 1996 durante uma passagem sua por São Paulo (esses sonhos foram registrados pela antropóloga Carmem Junqueira, que em seu contato de muitos anos com o pajé tem estudado a sabedoria ancestral desses índios). Comecemos pelos sonhos. Takumã chega e é inicialmente hospedado numa casa de praia adjacente a uma área de mata onde já haviam sido vistas cobras. Ele foi alertado sobre o perigo, especialmente porque tinha consigo a mulher e dois filhos pequenos. Em sua primeira noite nessa casa ele sonhou: "Uma enorme cobra apareceu e tive medo. Mas fiquei calmo quando ela me disse que era ela quem tomava conta daquela mata, ela era o chefe das cobras. Disse então que eu não precisava ficar preocupado, porque nada de ruim aconteceria para nós". Eis aí a alma ancestral se manifestando sob forma de cobra, dando-lhe força e proteção para enfrentar cobras literais ou metafóricas de nosso mundo civilizado. Ela é o grande poder do inconsciente. É o verbete mais longo de qualquer dicionário de símbolos. Esta é uma cobra mãe, que comanda o próprio mal, fazendo-se presente de maneira tão viva no sonho de um índio preocupado com a selva dos brancos.
Mas vejamos o último sonho de Takumã imediatamente antes de seu regresso ao Parque Nacional do Xingu: "Um índio bem velho chegou perto de mim e me perguntou se estava tudo bem e se eu tinha conseguido alguma coisa. Respondi não, não consegui nada." A antropóloga que o hospedava ficou cismada ao ouvir esse sonho e perguntou o que era essa "alguma coisa". Ele respondeu: "um Fax". Os Kamaiurá estão organizando uma associação cultural e estão pensando em obter um aparelho desses. Esse sonho, quinze dias depois da cobra, mostra que o inconsciente de Takumã abarca desde a serpente arquetípica até a tecnologia de ponta. Nós junguianos estamos querendo sonhar mais é com a cobra. Duas linhas se cruzam: alguns de nós queremos entrar um pouco no lado de lá, e os índios no de cá. E a situação agora é de ou vai, ou racha, porque eles estão por um fio de desaparecerem por completo. Hoje há pouco mais de duzentos mil índios no Brasil, quando na época do Descobrimento havia de seis a dez milhões. Havia mais de mil línguas indígenas, tesouros irremediavelmente perdidos. Uma língua leva mais de mil anos para se constituir. Como um milagre, sua estrutura emerge inteira do inconsciente. Centenas de línguas já desapareceram no Brasil sem terem deixado o menor registro e continuam até hoje a morrer. Algumas são faladas por meia dúzia de pessoas e é provável que lá pela metade do próximo século já não tenha sobrado mais nenhuma. O trabalho dos que estão coletando mitos vivos nas línguas originais é portanto da maior importância, como por exemplo o que vem sendo realizado pela antropóloga Betty Mindlin.

A alma Ancestral do Brail - Roberto Gambini - FINAL

Parte Final



(...)Os índios estão perdendo a terra e a cultura. No final de 1996 os jornais publicaram a notícia de que um cartel internacional especializado na comercialização de gens humanos para pesquisa industrial está oferecendo amostras de sangue Suruí. Essas amostras genéticas serão vendidas por enormes quantias para indústrias farmacêuticas interessadas em pesquisar novas formas de combater a obesidade a partir da manipulação genética. Esse mal, tão difundido nas sociedades de consumo devido ao desequilíbrio das formas de alimentação é inexistente entre as populações indígenas. Se for criado um medicamente eficaz, baseado num princípio novo, certamente os lucros serão consideráveis - mas os Suruí não estarão por certo na lista de distribuição de dividendos. O sangue indígena, capaz de curar males da nossa civilização, continua a ser roubado - eis aí uma imagem absolutamente high-tech e contemporânea que merece nossa atenção. Os novos símbolos que denunciam o contínuo drama de nossa alma ancestral vazam até pelos jornais; mas a consciência coletiva ainda não sensível o bastante para elaborá-los enquanto tema de auto-conhecimento. Outra versão moderna da pirataria que imperava na época das grandes navegações leva o nome de Plant Medicine Corporation. Esta organização, voltada para assegurar royalties de substâncias curativas do Terceiro Mundo que podem mais uma vez dar lucro ao Primeiro, já patenteou o uso do cipó alucionógeno huasca. O tráfico de especiarias ou de pau-brasil ainda não terminou, ele se renova e se reatualiza a cada década e á como se esse contínuo saque à cultura milenar não tivesse ainda sido compreendido em todas as suas implicações - especialmente as psicológicas. Caso o Brasil, portanto, venha a adotar uma política de efetiva proteção de seus recursos naturais e culturais e decida produzir industrialmente o chá de huasca, que embora ainda não pesquisado em seus potentes efeitos serve de base para a organização de novas religiões (Santo Daime e União do Vegetal) e permite a um crescente número de adeptos a vivência imediata da transcendência do ego, será necessário que nosso governo pague royalties a uma corporação americana pelo uso de uma erva medicinal milenarmente nossa. Nos anos 60, um assunto desses inflamaria a retórica anti-imperialista dos movimentos de esquerda; hoje, já não mobiliza mais ninguém. E no entanto, eis aí, deslavado, mais um símbolo que reflete a degradação de nossa alma ancestral e que sintetiza o estado de inviabilidade histórica que ameaça essa parte cada vez menor de nossa população através da qual nos conectamos às raízes. Os índios ao final perderão suas terras, morrerão de doenças várias, serão assimilados como mão-de-obra não qualificada na camada mais baixa da sociedade brasileira. Não surgiu até hoje uma política indigenista que minimamente funcionasse e os defendesse em seus direitos mais elementares. Mesmo aqueles que honesta e sinceramente defendem os índios não sabem mais o que fazer em âmbito nacional.
Terminarei esta reflexão com um breve comentário sobre um dos mitos coletados por Betty Mindlin em sua pesquisa de campo. Desde que o ouvi não fiquei mais em paz. Algumas poucas vezes nos reunimos em meu consultório para falar dessas histórias, cada um a partir de seu ponto de vista. Não pretendíamos chegar a interpretações completas, mas antes a tocar o fundo do poço. Ainda não se tem uma metodologia adequada que dê conta de um material tão vasto, com tantas variações, e que permita uma leitura tanto poética quanto antropológica e psicológica. O método junguiano tem aí um enorme desafio à sua frente. Pessoalmente, não me afino com a metodologia de Lévy-Strauss, que só vê nos mitos diagramas cifrados de uma estrutura social abstrata e nunca da alma que os gerou e que portanto pode estar neles espelhada. O mito em questão pode ser intitulado "A cabeça voraz", "A cabeça voadora" ou ainda "A cabeça que perdeu o corpo" e é narrado em várias tribos. Vou reproduzir, resumidamente, a versão Makurap.
"Marido e mulher vivem em harmonia. Tudo vem bem em sua vida na aldeia. Toda noite eles dormem juntos na rede e toda noite a cabeça da mulher se desprende do pescoço e vai voando em busca de comida em outras aldeias. A cabeça se alimenta durante a noite e antes do dia raiar volta e se encaixa novamente no pescoço. Quando acorda, o marido vê a mulher a seu lado como sempre, mas com uma pequena gota de sangue no pescoço. Ambos ignoram o que a cabeça faz em seu vôo solitário noturno. Um dia, a mãe da moça entra na maloca e surpreende o genro ao lado do corpo decapitado da filha e imediatamente o acusa. O corpo é enterrado e a tribo toda se volta contra o marido, a quem só resta fugir. A cabeça volta e não encontrando mais o corpo que lhe corresponde, pousa no ombro do marido, onde se fixa como uma segunda cabeça. Este fica desorientado, porque quando quer uma coisa, a cabeça quer outra. Esta começa a entrar em decomposição. O homem tenta se livrar dela, mas ela resiste. Finalmente ele a arranca do ombro, foge pela floresta adentro e ela o persegue até que o bacurau acaba levando-a para o reino dos pássaros..."
Creio que as imagens deste mito absolutamente brasileiro e autóctone nos dizem que a busca de conhecimento é arquetipicamente vedada às mulheres. Por algum tempo é possível encontrar alimento novo, mas este não pode ser integrado. O tabu então determina que a mente da mulher deve ficar ali ao pé do fogo onde cozinha, é lá que sua vida transcorre e lá estariam seu sentido e seus limites. Encontrei uma idéia similar no trabalho de Alícia Fernández, uma psicopedagoga argentina que estuda as dificuldades das professoras em desenvolverem um pensamento próprio. Essa autora encontra no Gênesis a origem desse mandato proibitivo: Eva é punida por ter ousado aceitar da serpente o fruto da Árvore do Conhecimento proibido por Deus. O tema é amplo e pode nos levar longe, mas aqui não se trata apenas de um problema arquetípico da mulher indígena, e sim algo que diz respeito ao princípio feminino como um todo, manifestado tanto nas mulheres como nos homens, na cultura ou na alma.
Mas há também outra possibilidade de leitura. Houve um tempo mítico em que o princípio masculino e o feminino estavam equilibrados e em harmonia, mas a partir de um certo ponto o último não pôde mais se expandir porque não é mais possível integrar qualquer transformação. Nossa alma ancestral é como essa cabeça. Ela perdeu o corpo, que seria a materialização de uma nova síntese - o corpo não existe mais, foi enterrado, desintegrou-se no inconsciente - e busca outro, ao qual no entanto não pode ser conectar por uma impossibilidade natural. Não se trata aqui de uma analogia à figura alquímica do andrógino, porque nesta masculino e feminino estão diferenciados mas unidos na base, num corpo que pertence às duas cabeças. No nosso mito a imagem é outra, a situação psíquica é outra. Essa cabeça desencorpada é nossa alma perdida vagando penada pela noite da inconsciência sem poder se encaixar naquele corpo que seria nossa própria realidade humana aqui e agora, uma realidade física, corpórea, psíquica, cultural, social e política. O simulacro de integração do princípio feminino arquetípico - isto é, ancestral e imemorial - justamente por não ser uma verdadeira integração mas algo falso, forçado, postiço, apodrece e cria dissociação, obscuridade, fastasmagoria. A consciência que nos orienta a todos procura então loucamente se livrar daquele encosto maldito, para poder continuar unilateralmente estruturada em sua racionalidade dominante. E aquilo que poderia transformá-la e revitalizá-la desaparece do campo conhecido: dissolve-se no céu do Cruzeiro do Sul, de onde até hoje nunca mais voltou. Vejo portanto nesse mito o drama da separação não redimida dos opostos e é esse o grande problema arquetípico que nos afeta essencialmente a todos.

(Palestra proferida em outubro de 1996 no Moitará, encontro promovido em Campos do Jordão pela Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Foram feitos alguns acréscimos. O autor é analista formado pelo Instituto C. G. Jung de Zurique, membro da Sociedade Internacional de Psicologia Analítica e da Sociedade Suíça de Psicologia Analítica. É sociólogo, advogado e Mestre em Ciências Sociais pela Universidade de Chicago. Publicou O Espelho Índio - os jesuítas e a destruição da alma indígena, Ed. Espaço e Tempo, 1988, e vários artigos.)


REFERÊNCIAS

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Ediciones Nueva Visión, Buenos Aires, 1992.
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12. MINDLIN, Betty. Tuparis e Tarupás - Narrativas dos índios Tuparis de Rondônia. Brasiliense, São Paulo, 1993.
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15. RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. Companhia das Letras, São Paulo, 1995.
16. VEJA, Garcilaso de la. Comentarios Reales. Origen e historia de los Incas del Peru (1609). Mercurio, Lima, 1970.
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